Entidades criticam escolha por pastor para assumir diretoria do Iphan

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Entidades criticam escolha por pastor para assumir diretoria do Iphan

RIO — Após ser noticiado que um pastor deve assumir uma das diretorias mais importantes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), 15 entidades publicaram neste sábado uma nota de repúdio, criticando à decisão. Elas apontam que há "escolhas arbitrárias e desmontes" nas instituições culturais e "em particular, no Iphan".

Tassos Lycurgo deve substituir Hermano Fabrício Oliveira Guanais e Queiroz, mestre em Preservação do Patrimônio Cultural, na diretoria do Departamento de Patrimônio Imaterial (DPI). A nomeação de Lycurgo ainda não foi oficializada no Diário Oficial da União (DOU), mas a cessão dele ao Iphan pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) foi publicada no DOU desta sexta-feira. Atualmente, Lycurgo é professor da pós-graduação em Design da UFRN.

"O que então podem esperar os segmentos da sociedade brasileira interessados na valorização do patrimônio cultural de modo amplo e inclusivo, diante da especulação já amplamente veiculada pela imprensa sobre a exoneração de Hermano Guanaes e Queiroz do cargo de diretor do Departamento do Patrimônio Imaterial do IPHAN, reconhecido estudioso e especialista neste campo, que vem desenvolvendo trabalho dedicado e exemplar? O que esperar quando a pessoa que irá substituí-lo não possui formação ou experiência prévia no campo do patrimônio e se apresenta como pastor de um segmento religioso que condena qualquer outra forma de expressão de religiosidade que não seja a sua?", questionam as entidades.

Em um de seus sites, o pastor diz que é presidente do Ministério da Defesa da Fé, igreja em Natal (RN), que tem como missão "apresentar de maneira científica, histórica e filosófica razões para seguir Jesus Cristo". Nas redes sociais, Lycurgo trata de assuntos existenciais e também posta mensagens cristãs.

"O rio só busca o profundo - o mar é consequência.(Assim deve ser nossa caminhada com Deus!)", escreveu no Instagram na semana passada.

Além de lecionar, Lycurgo afirma em seu currículo que é advogado, pós-doutor em apologética cristã e sociologia jurídica, doutor em educação, mestre em filosofia analítica e especialista em direito. Ele diz também que tem curso de liderança avançada, ministério pastoral e estudos bíblicos.

"Definitivamente, cuidar desse assunto – o patrimônio imaterial – não é tarefa para quem expresse concepções restritivas, dogmáticas, hierárquicas ou homogeneizadoras a respeito de qualquer aspecto da vida social, cultural e espiritual", diz a nota de repúdio. "As escolhas arbitrárias e os desmontes que vêm ocorrendo nas instituições culturais e, em particular, no IPHAN pedem, mais uma vez, reação enérgica da sociedade."

O Iphan já havia confirmado ao GLOBO que o pastor deve ser nomeado para a diretoria de Patrimônio Imaterial. Funcionários do setor já haviam sido avisados sobre a mudança. Eles temem que a saída de um nome com formação técnica na área e a chegada de alguém sem experiência possa prejudicar os trabalhos do órgão.

Entre outras funções, o DPI propõe diretrizes e critérios para a preservação e difusão do patrimônio imaterial brasileiro, em conjunto com as Superintendências Estaduais, além de gerenciar programas, projetos e ações nas áreas de identificação, de registro, acompanhamento e valorização do patrimônio imaterial.

Leia abaixo a nota completa e as entidades que assinam o texto:

Nota de repúdio à iminente mudança na Diretoria de Patrimônio Imaterial do IPHAN

A política de salvaguarda do patrimônio cultural imaterial formulada e implementada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) comemora 20 anos.  Devido à correção dos seus princípios democráticos, fundamentados na participação social; à construção de instrumentos inovadores, e, ainda, ao respeito e fomento intransigente da diversidade das manifestações culturais do Brasil, essa política tem obtido amplo reconhecimento, tornando-se referência mundial.

Esse sucesso se deve grandemente ao fato de terem estado à frente do Departamento do Patrimônio Imaterial do IPHAN, desde 2003, quando da sua criação, especialistas das áreas da Antropologia, Arquitetura, Museologia, Comunicação e Direito – que, além de dominarem o tema e suas principais questões, participaram ativamente dos debates ocorridos aqui e alhures sobre a salvaguarda dessa dimensão tão forte, mas ao mesmo tempo tão delicada, do patrimônio cultural. Forte porque decorrente de modos de fazer, criar e viver de grande poder de resiliência. Delicada porque, ao emanar de conhecimentos, sentimentos e habilidades que se expressam no e a partir do corpo das pessoas, demanda respeito intransigente aos diferentes códigos culturais e visões de mundo aos quais elas pertencem. Definitivamente, cuidar desse assunto – o patrimônio imaterial – não é tarefa para quem expresse concepções restritivas, dogmáticas, hierárquicas ou homogeneizadoras a respeito de qualquer aspecto da vida social, cultural e espiritual.

O que então podem esperar os segmentos da sociedade brasileira interessados na valorização do patrimônio cultural de modo amplo e inclusivo, diante da especulação já amplamente veiculada pela imprensa sobre a exoneração de Hermano Guanaes e Queiroz do cargo de diretor do Departamento do Patrimônio Imaterial do IPHAN, reconhecido estudioso e especialista neste campo, que vem desenvolvendo trabalho dedicado e exemplar? O que esperar quando a pessoa que irá substituí-lo não possui formação ou experiência prévia no campo do patrimônio e se apresenta como pastor de um segmento religioso que condena qualquer outra forma de expressão de religiosidade que não seja a sua?

A salvaguarda do patrimônio cultural imaterial precisa estar fundamentada, acima de tudo, no respeito à diversidade. Nos últimos 20 anos, diversos bens vinculados a expressões da religiosidade popular ou a sistemas culturais e religiosos de matriz africana e indígena foram reconhecidos como patrimônios culturais do Brasil, sendo alguns deles também reconhecidos pela Unesco como Patrimônio Imaterial da Humanidade, como o Círio de Nazaré, a Arte Kusiwa Wajãpi, o Samba de Roda, a Roda de Capoeira, o Ritual Yaokwa do povo Enawenê-nawê ou o complexo do Bumba-meu-boi do Maranhão. As escolhas arbitrárias e os desmontes que vêm ocorrendo nas instituições culturais e, em particular, no IPHAN pedem, mais uma vez, reação enérgica da sociedade. O Fórum Nacional de Entidades em Defesa do Patrimônio Cultural se coloca à disposição da sociedade na luta contra ações dessa natureza.

Brasil, 05 de dezembro de 2020

Subscrevem este documento:

Associação Brasileira de Antropologia (ABA)

Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (ABAP)

Associação Brasileira de Ensino de Arquitetura e Urbanismo (ABEA)

Associação Nacional de História (ANPUH)

Associação Nacional de Pesquisa em Tecnologia e Ciência do Patrimônio (ANTECIPA)

Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS)

Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Geografia (ANPEGE)

Comitê Brasileiro de História da Arte (CBHA)

Comitê Brasileiro do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios(ICOMOS-BR)

Conselho Internacional de Museus – Brasil (ICOM-BR)

Federação Nacional de Estudantes de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (FeNEA)

Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas (FNA)

Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB)

Seção Brasileira do Comitê Internacional para a Documentação e Conservação de Edifícios, Sítios e Conjuntos do Movimento Moderno (Docomomo Brasil)

Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB)

Fonte: O Globo

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